segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Mikas - A gata "paraquedista"

Existem coisas no mundo que realmente não consigo explicar.
Tenho um certo fado para estar naquele sítio, àquela hora.

Depois de um dia de trabalho super desgastante, à 1h da manhã, apanhei o metro e fui para casa. Pela primeira vez, fui com aquele colega de trabalho que mora na minha zona e saí na paragem a seguir à que costumo sair. Passei por uma bomba de gasolina, andei 1 minuto e lembrei-me de voltar para trás, para ir comprar tabaco. Andei cerca de 5 minutos até ficar perto de casa e vi um gato a atravessar a rua para uma zona de habitações. Achei estranho.
Ia distraída a falar ao telefone, mas quando me aproximei do sítio para onde tinha visto o gato ir, fui deitando um olho para ver se o via. Senti que algo estava mal. Passei várias portas e lá o encontrei. Estava mesmo algo mal.

O bichinho estava aninhado à porta do prédio, com uma respiração super estranha e barulhenta, e a sangrar bastante da boca. Fiquei logo aflita. Disse ao telemóvel o que se estava a passar e tomei logo a decisão que tinha de fazer alguma coisa. Perguntei a umas senhoras que estavam num prédio ao lado se sabiam o que tinha acontecido ao gatinho e disseram que tinha caído de uma janela de um prédio próximo. Como o gato estava aninhado naquela porta, calculei que o dono estaria lá.

A porta do prédio estava entreaberta e abri-a. O gato prontamente entrou e aninhou-se junto ao elevador. Subi as escadas e toquei à primeira porta que me apareceu. 5 minutos depois lá uma senhora abriu a porta. Não falava Português mas a língua não foi importante. Miei e ela percebeu que tinha a haver com um gato. Não tinha animais. Bati na segunda porta e uma senhora disse, do lado de dentro de casa, que não tinha gatos e que ali no prédio também ninguém tinha gatos. Saí do prédio e comecei a olhar para as casas que tinham as janelas abertas. Comecei a tocar nas campainhas. Não tive resposta. De repente, a porta onde tinha estado a tocar do prédio do gatinho abriu-se e saiu de lá uma senhora. Disse que era a senhora com quem tinha estado a falar à pouco e que se tinha lembrado que vivia no prédio uma senhora há 2 meses e que não sabia se ela tinha gatos ou não. Voltei para o prédio e corri para o 3º andar. Bati à porta e disse "Boa noite", aflita, "É por causa de um gatinho". A senhora abriu a porta e perguntei se tinha gatos.

"Sim, tenho", disse-me. Dei a descrição e era um dos gatos que tinha. "Encontrei o dono", pensei.
Descemos as escadas até ao Rés do Chão e era o gato dela. Mikas, chamava-se. Era uma menina muito meiguinha.
Disse o que tinha visto e que tinha que fazer alguma coisa porque aquele sangue todo podia significar algo mau. A senhora ainda estava em choque. Disse-lhe para trazer uma toalha e pegar nas coisas dela e para irmos ao veterinário.

Peguei no telemóvel para chamar um táxi e por acaso passou um naquela rua, com a luz verde. Fiz sinal e o táxi parou. Peguei na transportadora que a senhora tinha trazido e ao preparar-me para entrar o táxi, o motorista saiu e abriu a mala. Eu disse "Não, a gatinha caiu agora da janela, preciso de a levar ao veterinário e vai no meu colo". O homem disse que não, que a Mikas tinha de ir na mala. Agradeci e virei costas com a transportadora na mão e com a senhora atrás de mim. Peguei outra vez no telemóvel para chamar um táxi e mais uma vez apareceu um táxi. Fiz sinal e perguntei logo ao senhor se podia levar a transportadora no colo até ao veterinário. Este senhor prontamente permitiu e lá seguimos caminho para o Hospital Veterinário mais perto. Paguei o táxi, deixei grojeta pela amabilidade, e entramos no Hospital.

A Mikas foi auscultada e mediram-lhe a temperatura. À primeira vista estava tudo bem. O sangue vinha da boca, rebentou o palato com a queda. A médica tirou sangue e fez o raio-x. A bexiga, a coluna e o tórax estavam todos bem. Boas notícias!
Ficou numa jaula, com muitos vizinhos felinos, a soro. Vai lá estar 2 dias em observação e alimentação porque por causa do palato rebentado, não pode comer pela boca. Agradecemos todo o serviço prestado e viemos embora a pé para casa. A senhora deu-me o contacto para me dar notícias da Mikas e despedimos-nos.

A primeira coisa que fiz quando cheguei a casa foi abraçar as minhas gatinhas. Fiquei feliz por elas estarem bem, e por ter podido ajudar a Mikas a receber tratamento, porque àquela hora pouca gente passava na rua e não sei quanto tempo a Mikas ir passar a noite à porta do prédio. Ainda por cima porque a Mikas tem bronquites agudas, tomou cortisona muito tempo, e no Inverno não pode apanhar frio.

À hora em que vi a Mikas atravessar a rua, já era suposto estar em casa. Se não tivesse ido com aquele colega de trabalho, não tivesse saído naquela paragem do metro e se não tivesse voltado para trás para ir à bomba comprar tabaco quando me lembrei.

Fado!