"Esse est percipi", George Berkeley
Tendemos a viver identificados com aquilo que pensamos e sentimos. Dizemos “sou ansiosa”, “sou insegura”, “sou assim”, como se cada pensamento que atravessa a mente fosse uma definição estável do nosso ser. No entanto, quando observamos com mais atenção, algo subtil começa a revelar-se: nem tudo o que aparece na mente nos define de forma absoluta.
Pensamentos surgem. Emoções surgem. Sensações e memórias também. E surgem, na maioria das vezes, sem serem escolhidos. Não decidimos sentir ansiedade antes de ela aparecer, nem escolhemos, conscientemente, o pensamento que irrompe num determinado momento. Podemos sentir raiva, não somos a raiva. Ainda assim, há algo em nós que percebe tudo isso. Há uma espécie de presença que nota: “estou a pensar”, “estou a sentir”, “estou a reagir”.
Esta capacidade de perceber o que acontece internamente levanta uma questão antiga e profundamente filosófica: se consigo observar os meus pensamentos, então sou eu esses pensamentos?
A resposta intuitiva costuma ser sim. Mas há uma segunda possibilidade: aquilo que observa não é necessariamente o mesmo que aquilo que é observado.
Os pensamentos mudam constantemente. As emoções também. Um instante pode ser de confiança, o seguinte de dúvida. Um dia sentimos clareza, no outro confusão. Se o “eu” fosse exclusivamente aquilo que pensa e sente, então seria igualmente instável e fragmentado. No entanto, existe uma continuidade na experiência de estar consciente dessas mudanças.
Há, por assim dizer, uma diferença entre o conteúdo da mente e a consciência desse conteúdo. Os pensamentos aparecem dentro da experiência, mas também são percebidos. E essa perceção não parece depender do conteúdo específico que surge.
É aqui que surge a ideia do “observador”: não como uma entidade separada e rígida, mas como a própria capacidade de estar ciente do que acontece. Tal como um céu onde as nuvens passam, a mente pode ser vista como um campo onde pensamentos e emoções surgem e desaparecem.
No entanto, esta metáfora não deve ser tomada de forma literal. Não existe necessariamente uma separação real entre “o que pensa” e “o que observa” como duas coisas distintas dentro de nós. Trata-se antes de uma forma de descrever duas funções da experiência: o surgimento dos pensamentos e a consciência desse surgimento.
Um ponto importante é perceber que muitos dos nossos pensamentos não são deliberados. Eles aparecem espontaneamente, e só depois podemos reconhecê-los, questioná-los ou segui-los. Outros pensamentos são mais intencionais, como no raciocínio e na reflexão. Mas mesmo nesses casos, há sempre uma consciência que reconhece que o pensamento está a acontecer.
Desta perspetiva, talvez não sejamos reduzíveis aos conteúdos da mente. Dizer “sou isto” ou “sou aquilo” pode ser apenas uma forma de fixar algo que, na realidade, está em constante movimento.
No entanto, isto não significa negar os pensamentos ou afastar-se deles. Pelo contrário, trata-se de uma mudança na relação que temos com eles. Em vez de nos fundirmos automaticamente com cada pensamento que surge, podemos reconhecê-lo como um evento mental: algo que aparece, permanece por algum tempo e depois desaparece.
Esta simples mudança de perspetiva tem um efeito profundo: aquilo que antes parecia uma verdade absoluta sobre nós mesmos começa a ser visto como uma experiência passageira. E, nesse espaço de reconhecimento, abre-se a possibilidade de não reagir automaticamente, de observar antes de agir, de ganhar alguma liberdade interior.
Talvez, então, a questão “quem sou eu?” não precise de uma resposta definitiva. Talvez o mais próximo de uma resposta seja este movimento contínuo entre o que surge dentro de nós e a consciência desse surgir. Entre o vivido e o percebido. Entre o pensamento e o saber que se está a pensar.
Frases que me trouxeram aqui:
Tudo à minha volta são construções da minha cabeça.
Somos o universo experimentando-se a si próprio.
Eu não sou eu, sou quem me observa.
São as coisas que me irritam ou sou eu que me irrito com as coisas?
Ser é ser percebido.
O Universo é mental.