quinta-feira, 12 de março de 2026

maria

maria - Carolina Deslandes




Maria não queria saber de ser bonita
Queria ler os livros, sublinhar a lápis
Escrevia sobre uma tal rapariga
Num jeito inocente, apaixonado e frágil
A timidez de uma vida interdita
Os pais diziam que já devia namorar
Falavam do João a quem amava a Rita
E no quarto sozinha punha-se a chorar
Será que é verdade que é imperfeição
Ser diferente do que quiseram p'ra nós?
A família diz-lhe que é doente do coração
E ela não queria magoar os avós
Então Maria vestiu vestido
Esqueceu os livros, quеimou as cartas
Jantou com o João e fingiu gemidos
Ele diz quе ela é sua namorada

Maria nunca foi feliz
Mas é atriz p'ros seus amigos
Uma vida que com "di", estava escrito
Tem um anel e os pais aplaudem
"Como é bonito, como é bonito!"
Já divide casa, cozinha o jantar
Escolhe o lugar e o vestido para se casar
E a Rita agora quando a vê passar
Muda de passeio, muda de sentido
Será que o amor é coisa p'ra tratar
Tal qual uma doença triste
Será que Deus escolheu quem devemos amar?
Será que Deus existe?
Então Maria casou de vestido
Brindou com vinho, dançou a valsa
Disse o sim ao João, que é seu prometido
Ele diz que ela é mais bonita casada

Maria toma comprimidos
Os dias compridos não a deixam dormir
Tem uma voz a falar ao ouvido
Diz-lhe que o caminho é só não desistir
Tem um filho na barriga
E uma rapariga que nasceu primeiro
Dizem que ganhou a lotaria
Mas o sabor de um prémio é ser verdadeiro
Será que se fingir o tempo inteiro
Um dia destes vai virar verdade?
A solidão acesa como um candeeiro
A iluminar a falta de vontade
Então Maria perdeu o sorriso
Agora o seu marido diz-lhe que não a quer
Saiu de casa a um domingo
Sem um aviso, ou um bilhete sequer
Maria fingiu uma lágrima
Virou a página, até mudou de rua
E agora com mão na vida
Escreveu à Rita
"Tenho saudades tuas..."